Uso da ferramenta abre espaço para conversas entre pais e filhos sobre limites, planejamento e responsabilidade financeira
Aprender a cuidar do próprio dinheiro é um dos desafios da adolescência. Em uma fase marcada pela busca por independência, pelos programas com os amigos e pelas primeiras decisões de consumo, o cartão mesada pode ser um aliado para que os jovens comecem a desenvolver autonomia financeira com acompanhamento da família.
A proposta é transformar uma experiência cotidiana em aprendizado. Em vez de depender dos pais a cada compra, o adolescente recebe o cartão e pode acompanhar via aplicativo como administrar uma quantia previamente definida, acompanhar os gastos e decidir como distribuir o dinheiro ao longo do período. Na prática, isso significa entender que gastar com uma coisa pode exigir abrir mão da outra e que realizar um desejo também pode depender de planejamento.
A escritora Malu Lira, que tem mais de 20 livros sobre educação financeira publicados, traz o olhar de uma adolescente para essa conversa. À frente do projeto Malu Finanças, ela diz que explorar ferramentas presentes na rotina dos jovens ajuda a aproximar a educação financeira da realidade de quem está começando a conquistar independência. “O cartão mesada pode ser utilizado para organizar os gastos com lanches, passeios, compras e outras despesas pessoais. Dependendo do produto, também permite acompanhar as movimentações e estabelecer limites, oferecendo aos responsáveis uma maneira de participar desse processo sem precisar decidir cada compra pelos filhos”, diz ela.
O aprendizado, porém, não está apenas na tecnologia. Está nas escolhas feitas com o dinheiro disponível. Quando o adolescente precisa decidir entre comprar algo naquele momento ou guardar uma parte da mesada para realizar um plano futuro, começa a exercitar habilidades como planejamento, definição de prioridades e controle dos impulsos de consumo. “Até mesmo situações em que o dinheiro acaba antes do previsto podem servir de aprendizado. Com orientação e diálogo, os jovens têm a oportunidade de rever as próprias decisões e compreender as consequências dos gastos, em vez de simplesmente receber uma quantia extra sempre que o orçamento termina”, explica.
Para Malu, a autonomia financeira não significa também a ausência de limites. Para que o cartão mesada cumpra uma função educativa, é importante que a família combine previamente o valor disponibilizado, quais despesas ficarão sob responsabilidade do adolescente e como será feito o acompanhamento. “A proposta também abre espaço para discutir a diferença entre necessidade e desejo, a importância de poupar e os cuidados com compras online. São conversas que ajudam os jovens a desenvolver critérios próprios para tomar decisões, em vez de apenas seguir regras estabelecidas pelos adultos.”
A experiência pode representar um primeiro passo para que os adolescentes compreendam o valor do dinheiro, assumam responsabilidades compatíveis com a idade e se preparem gradualmente para uma vida financeira independente. “Esse cartão é um ensaio para o futuro, tanto para os adolescentes quanto para os pais. É fundamental que num período em que ainda temos o meu, o eu e a vontade de possuir de pertencer tão latente, tenhamos esse limite dado pelo cartão mesada. Porque pode sim acontecer de nos deixarmos guiar pela emoção do momento, mas a partir disso, a família pode ensinar também sobre a importância desse pensamento antes de efetivar uma compra, de não se guiar apenas pela vontade”, conclui Malu.
